Arquivo de Arte e Sociedade
SIM, ESTAMOS JUNTOS por Karina de Faria
UM COLÓQUIO DE TROCAS ARTÍSTICAS, ACADÊMICAS, SIMBÓLICAS, POLÍTICAS, SOCIAIS E EMOTIVAS NA CIDADE DE SENHOR DO BONFIM – BAHIA
Estive em Senhor do Bonfim para participar, como pesquisadora, do I Colóquio sobre a História do Teatro no Piemonte Norte do Itapicuru, que homenageou o dramaturgo e diretor teatral bonfinense José Carvalho, no ano de seu centenário. Entre 04 e 07 de setembro o evento reuniu artistas, professores de arte e história, pesquisadores, ativistas, estudantes, cidadãos, contou com exposição sobre a história da região, feira de livros, 08 mesas de debate, atrações musicais e teatrais (incluindo a montagem de “O Condenado Inocente” encenado por José Carvalho nas décadas de 1950 e 1960), além de belas confraternizações e de uma “alvorada” pelas ruas de Bonfim, após uma madrugada inteira de apresentações de artistas e grupos da cidade e região.
O Colóquio e a movimentação e impacto que causaram na comunidade, me fizeram pensar muitíssimo em como é fundamental fazer deste tipo de encontro, um acontecimento não apenas acadêmico e artístico, mas também social e político.
Há muito tempo reflito sobre a importância do estreitamento de laços entre artistas e não-artistas, numa convivência mais próxima, carnal, mundana. Falo sobre uma proximidade que desmistifique a figura do artista como um ser que ocupa duas posições extremas no imaginário da sociedade: seja a de um ser especial, genial, de sensibilidade acima da média, e portanto, superior ao resto dos mortais, seja, na outra ponta, a do marginal, de valores degredados, e vida desregrada e portanto, inferior ao cidadãos de bem.
Abro parêntesis: A meu ver, nenhum desses extremos cabe ao artista do nosso tempo. Colocando de outra forma, nenhum desses estereótipos serve para a nossa prática artística e para a afirmação do artista cidadão ou para defesa do direito que homens e mulheres tem de produzir e consumir arte. Porque são noções que afastam, que bloqueiam passagens e intercâmbios possíveis e necessários entre criadores, produtores e observadores… Acho até que, em dados momentos, essa distância agrada a interesses não muito interessados (com o perdão da redundância) na promoção da discussão ética, estética, política e social que a cultura artística provoca na multidão, gerando “perigosos” pensamentos e questionamentos capazes de transformar … Fecho parêntesis.
Noutro momento, pretendo discorrer um pouco mais sobre esse tema, por ora, gostaria de ressaltar a importância do “estarmos juntos” para que a arte não esteja assim tão longe da vida, não exatamente no sentido estético/criativo. Aliás, neste sim, tudo deve ser permitido e o limite é qualquer coisa que nem sempre se sabe… Quero falar do “estar junto” em dois sentidos: o do artista na relação com seu entorno e entre os próprios artistas.
Acredito que é imprescindível estarmos juntos daquela sociedade a qual pertencemos mesmo quando, enquanto artistas, temos a função de negá-la. Porque se pretendemos fazê-la ouvir nossas críticas é preciso que haja ouvidos presentes em nossas platéias. Se pretendemos fazê-la enxergar pontos de vista que consideramos inovadores e reveladores é preciso que haja olhos para vê-los. Se desejamos que esta sociedade balance com o nosso movimento é preciso que haja corpos vivos, presentes num espaço de troca de energias carnais e astrais. Se sonhamos ver a beleza do que fazemos provocar êxtase e emocionar gente, é preciso que haja gente suspirando pela estética que lhes oferecemos.
Assim é, o estarmos juntos também, entre nós, artistas. Mesmo quando discordamos profundamente daquilo que o colega diz, ou da forma como o diz. E, no nosso caso, a forma é também o discurso. O exercício da convivência entre aqueles cujo conteúdo e modo de trabalho são opostos é muito difícil, mas, acredito que deve ser uma busca diária. A favor de todos. Falando especificamente do trabalho feito por grupos artísticos, sabemos o quão é difícil manter por muito tempo as mesmas pessoas trabalhando, principalmente em projetos e propostas não remuneradas. Imaginemos então como seria fazer com que esses grupos juntos formassem um coletivo de coletivos? Isso é quase impossível! De fato, mas as coisas não precisam ser assim tão definitivas, e aliás, na vida, não são mesmo. Ainda bem. O que não dá pra desconsiderar é a movimentação e o impacto que essa junção causa no ambiente em que acontece.
E eis que uso as mesmas palavras empregadas, no início desse texto, quando me referi ao Colóquio em relação a cidade de Senhor do Bonfim e região. O que eu vi lá, e olhe que não estive em todos os dias do evento, me fez crer ainda mais no clichê “a união faz a força”. Não se trata daquela união e da força que vemos em grandes passeatas e assembléias de classes trabalhistas. Há quem diga que se os artistas de teatro fizerem greve, ninguém vai sentir falta (essa afirmação, rasa e polêmica, poderia nos levar a uma tese ou a um novo ciclo de debates!).
Em se tratando de trocas artísticas e discussão teórica e histórica como aconteceu no Colóquio, a força a qual me refiro é mais invisível do que imaginamos. Ela preenche por dentro as pessoas que comungam de momentos coletivos. Ela se transforma num motor que move individualidades comprometidas. E ninguém segura o sujeito que está comprometido. Esteja ele no palco, na platéia, na rua, na sala de aula, no escritório, num cargo público ou atrás de um balcão.
Vi no verso do programa do evento, além dos patrocinadores, uma impressionante lista de pequenos apoiadores: pessoas físicas, lojas de diversos portes e variados segmentos, instituições públicas e privadas de ensino e órgãos de administração pública. Eis o “estar junto”. É preciso valorizar essa rede, esse encontro, essa relação entre pares que poucas vezes se enxergam com tais.
Sinto-me privilegiada por ter vivido este encontro histórico/político e torço sinceramente pra que ele reverbere mais e mais, na vida das pessoas, no cotidiano da cidade e do Estado, no imaginário daqueles que o viram de longe ou que participaram de perto trabalhando, apoiando, apresentando-se, patrocinando, discutindo, e até discordando ou a ele se opondo (o que significa que há uma força a qual se opor!)
Não há mais como voltar atrás, a fervura já aconteceu e as substâncias já se misturaram. Bebamos o caldo pra ganhar “sustança” e empreender novos encontros, novas conquistas, e abrir caminhos para ocupar espaços cada vez maiores, especialmente nos lugares onde a arte se instaura e aos quais ela pertence por princípio: o coração e a alma das pessoas. Porque lá dentro é onde tudo e começa e pra onde tudo converge!!!
Vivas a José Carvalho, que sabia muito bem disso e a seu neto Reginaldo Carvalho, (grande mentor do Colóquio), que embora, sem tê-lo conhecido, aprendeu muito bem a lição do mestre!
Obrigada bonfinenses!
E até breve…
Karina de Faria
PORQUE VOCÊ NÃO DEVE DIZER A SEU AMIGO ATOR DE TEATRO “EU AINDA VOU TE VER NA GLOBO” – por Iara Villaça
Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto conta a história de um sertanejo que empreende uma jornada em busca de uma vida melhor no litoral. Pelo caminho enfrenta dificuldades, vê a miséria, o sofrimento, a esperança, a dor.
Pelo que conheço, a realidade dos atores baianos e dos atores de outras regiões do país não é muito diferente, mas vou referir-me aqui ao ator baiano contemporâneo, por ter mais propriedade para falar sobre ele. Ser ator de teatro na Bahia, hoje, é viver o dilema Severino: passar fome em sua terra natal ou morar nas palafitas da cidade grande.
Não me refiro a “terra natal” e “cidade grande” como espaços físicos, no sentido literal. Severino é agricultor, está familiarizado com o trabalho do campo, lá gostaria de viver. É pensando em sua sobrevivência que parte para o litoral onde, segundo sabe, as condições são melhores. Considerando “terra natal” como esse local onde sabemos e queremos viver, onde é possível ser feliz, desenvolver nossas potencialidades e contribuir com o que temos de melhor em nós para a sociedade, a “terra natal” do ator seria, metaforicamente, a profissão de ator, o que ele quer ser. Já “cidade grande” é o “local” instituído melhor, legitimado, valorizado. Seriam, por exemplo, as profissões que levamos em conta quando pensamos no sustento, na sobrevivência e no prestígio porque parecem ter um mínimo de garantias trabalhistas. A profissão do ator não possui esse mínimo.
“Que salário tem o ator? Que leis? Como se aposenta? Como garante o pagamento de suas contas? Como garante seu sustento?” São questões já defasadas com relação a outras profissões, mas em que o ator baiano está imerso atualmente por viver um momento de defesa e conscientização de seus direitos enquanto profissional.
Que direitos tem o ator a não ser o direito de ser exigido em corpo, intelecto, voz, espírito, emoção, sensação, imaginação, criatividade, mente… De trabalhar durante toda a semana na sala de ensaio (que nem sempre é uma sala de ensaio); trabalhar na frente de livros, revistas, filmes, fazendo pesquisa. De correr atrás de cursos e oficinas de todas as técnicas possíveis e imagináveis (canto, dança, instrumentos, técnicas corporais, circenses, lutas, idiomas…) porque o conhecimento básico do ator é simplesmente TUDO O QUE FOR POSSÍVEL. De fazer todas as audições que aparecem porque “audição é terrível, mas tem que fazer, né?” De passar a semana fazendo divulgação para o espetáculo em que deverá estar inteiro no fim de semana…
Acredite, esses são seus direitos. Pergunte a qualquer ator o que ele gostaria de fazer e seriam essas coisas: treinamento, pesquisa, ensaio e apresentação. Mas na Bahia ator não é remunerado, estar em cartaz num teatro é fazer caridade de dar dinheiro ao teatro e emprego aos técnicos, salvo raras exceções. Mas teatro dá dinheiro. Existem as vendas, os editais, os projetos-escola, o teatro-empresa, em que até os atores ganham alguma coisa melhor. Teatro dá dinheiro pra quem? Existem outras funções ligadas ao campo teatral que são remuneradas, e profissionais que, inclusive, vivem desse trabalho, como é o caso de muitos produtores. O problema, obviamente, não está na remuneração desses profissionais, mas na falta de remuneração do ator.
Por isso, a maioria dos atores baianos se desdobra em várias outras funções, tentando não sair do campo do teatro: elabora projetos fazendo as vezes de produtor; corre atrás de patrocinador, se desdobra em captador de recursos, trabalha como técnico de palco, dá aulas, administra teatros. Ou parte para um trabalho em outra área. Faz tudo isso para que seu trabalho de ator aconteça, porque se não o fizer, não adianta ensaiar também.
Por isso a escolha mais sensata seria – imitando “Morte e Vida Severina” – de pular da ponte do teatro para um chão mais firme. Entretanto, muitas vezes, pular da ponte do teatro significa, como na obra de João Cabral de Melo Neto, “saltar fora da ponte e da vida”. O que seria escolher uma profissão, torna-se uma sina: porque ocorre após se vasculharem todos os cantos do ser em busca de algum vestígio que leve a qualquer outra opção, e não se encontra mais nada além da opção do teatro. É quando constata que o “não ser” não existe no “ser ou não ser” e a questão se torna “ser ou ser”, que o ator se resigna à sua vida severina.
Brasileiro gosta de histórias severinas, com muito sofrimento e dor. Mas, como atriz de teatro formada na Bahia e inserida no movimento teatral e no movimento de profissionalização do ator, quero informar que o ator não quer mais viver, fora do palco, o papel de Severino.
Ele quer a parte que lhe cabe desse latifúndio. Quer subsídio para sua pesquisa, verba para sua montagem, direitos trabalhistas, plano de saúde, de previdência, respeito, valor, dignidade, casa, carro, comida, diversão e arte, seu filho em curso de informática, inglês e karatê (ele quer o mesmo que você quer para você). E quer ouvir seu amigo dizer “eu quero te ver no teatro”. Não porque a Globo, ou a TV, ou a novela, sejam coisas ruins, têm seus méritos e desvantagens. Mas são outra coisa. Você já perguntou se seu amigo quer ser ator de TV? Quando você diz “eu ainda vou te ver na Globo” é como se dissesse “você só vai ter valor no dia em que estiver na Globo, o que você faz agora não tem valor”.
Então meu conselho para quem não é ator é que comece a assistir a muito teatro, até ter parâmetro para dizer do que gosta ou não. Porque quando se vê cinema e não se gosta do filme, não se sai achando que cinema é ruim. É uma questão de quantidade de experiências.
A partir daí, preste atenção a quem se liga a teatro, mais adiante você poderá conhecer as nuances dos apoiadores e patrocinadores, mas para começar, dê atenção a tudo. Dê valor aos prêmios de sua região. Acompanhe o trabalho dos artistas.
E você vai compreender que nada disso que você fará será por caridade a uma classe “coitada”. Mas será defender seu próprio direito de ter diversão e arte nessa forma tão singular que é a presença absoluta, o encontro máximo. Seu direito de ver ali, pulsando em sua frente, seus valores e idéias questionados, sua ordem transgredida, sua percepção virada ao avesso, seu ser atingido em todos os sentidos. E entender que um país em que seus cidadãos não podem estar em sua “terra natal”, contribuindo com o que têm de melhor, é todo um país severino.
A arte do ator não mata a sua fome de comida, não garante sua sobrevivência, leitor; mas fala, mostra, afirma ou questiona tudo aquilo em que você se baseia para querer sobreviver.
O ator, ao colocar sua máscara, não esconde, revela. Revela o espetáculo da vida de que fala João Cabral de Melo Neto em sua obra. E é interessante que ele utilize essa expressão: “espetáculo”. Porque é o caráter espetacular da vida que faz com que ela, a vida, seja a melhor resposta para a questão de Severino:
“Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar numa noite,
fora da ponte e da vida?”
Trocando em miúdos:
“SEVERINO: Seu José, mestre carpina, por que não morrer? Por que continuar vivo?
S. JOSÉ: Porque a vida é um espetáculo.”
E eu ainda espero te ver nas platéias de Salvador.









