Arquivo de Economia da Cultura
O TEATRO E O BESOURO – por Karina de Faria
Certa feita, um grupo de cientistas reuniu-se numa sala, fechada a sete chaves, para estudar um fenômeno muito especial: o vôo do besouro. O objeto do estudo, que não entendia muito bem a língua daqueles senhores e senhoras tão sérios e circunspetos, estava lá, numa mesa enorme, prateada, devidamente higienizada, protegido por uma redoma transparente sob uma luz muito forte. O calor era insuportável! O pobre coitado tomou um susto quando viu sua imagem 1000 vezes ampliada num telão que era, na verdade, o verdadeiro alvo do olhar dos estudiosos. Foi ainda obrigado a permitir que suas asinhas fossem manipuladas por uma pinça para um lado e outro, para cima e para baixo, e nada pôde fazer quando o colocaram numa balança, pra lá de sensível, capaz de calcular seu peso com a precisão que só a mais alta tecnologia consegue fazer. O debate científico corria solto com cálculos de peso, massa, resistência, velocidade do vento, e coisas que o valham. Dez horas mais tarde o trabalho foi registrado num relatório de 300 páginas que finalizava com as seguintes palavras “ASSIM, DE ACORDO COM AS LEIS DA AERODINÂMICA, O SR. BESOURO, NÃO PODE VOAR” Depois que assinaram o relatório, os cientistas deixaram a sala. O besouro, muito triste, ficou lá, sozinho, até que a arrumadeira com pena do bichinho, tirou a redoma, apagou a luz e o colocou na janela…
Pausa.
Eis que nos encontramos num momento em que se discute, com muita propriedade e também com muito atraso, a importância da cultura e de seus desdobramentos na economia de um país. Sempre reconhecida, no plano do discurso, por seu significado histórico, simbólico, humano, social, eis que chegou a sua vez de “subir de posto”, ganhar status e ocupar o palácio das preocupações econômicas e políticas de estudiosos da economia e dos chefes de Estado. As chamadas indústrias criativas chamam a atenção de todo o mundo no que se refere à altíssima taxa de crescimento que apresenta quando comparada a outras atividades econômicas. Quando recebe investimentos (vejam bem: fala-se aqui de investimentos, não de apoio, não de ajuda de custo, não de assistencialismo) o setor responde de maneira surpreendente. Segundo Ana Carla Fonseca Reis, a Grã-Bretanha, ao buscar em 1997, um substituto para sua indústria manufatureira que andava enfraquecida diante da concorrência internacional encontrou sua majestade: “A Cultura”
“Foi justamente na cultura, através das indústrias criativas, que a Grã-bretanha lançou suas esperanças – e investimentos. Desde então, o setor tem crescido a um ritmo vertiginoso, garantindo o crescimento da economia. Entre 1997 e 2000, por exemplo, a taxa de crescimento das indústrias criativas foi de 7,9% do PIB, contra 2,8% da economia. Em 2000, o setor rendeu £ 8,7 bilhões em exportações. O desemprego, a grande praga que atinge a economia européia, também tem sido combatida através da cultura. Entre 1997 e 2001, o emprego nas indústrias criativas teve uma taxa média de crescimento de 5% ao ano, representando 1,95 milhão de empregos em 2000.
Economia da Cultura 21/09/2005-
Ana Carla Fonseca Reis
Estamos falando de Indústrias Criativas, e há que se atentar para o fato de que elas englobam atividades das mais diversas, entre elas o desenvolvimento de software, por exemplo, mas também o cinema, o artesanato e o teatro, cujo lugar no meio deste turbilhão ainda está por ser definido ou, para não fugirmos do tema, contabilizado.
Sim, nós, onde estamos nós, nessas contas? Falando mais especificamente do nosso baiano teatro, o que parece é que, quando pensamos do ponto de vista da macro-economia tudo fica nublado… O que se apresenta, de fato, à nossa frente, o que conseguimos identificar, imediatamente, são os pequenos números, aqueles com os quais nos ocupamos frequentemente no cotidiano: o preço da pauta dos teatros, os valores dos editais públicos de montagem e circulação de espetáculos, os percentuais de ocupação das platéias, os cachês dos técnicos, das costureiras, dos iluminadores, dos figurinistas, dos cenógrafos, a impressão dos cartazes, o lanche do camarim. E haja número!
O alcance e a extensão dessa rede é, para quem se encontra nela enredado, difícil de enxergar, como num mosaico visto de muito perto. Mas é preciso, e cada vez mais urgente, identificar o lugar que ocupamos e aqueles que deixamos de ocupar. Encontraremos, sem dúvida, potencialidades econômicas subaproveitadas. E ao mesmo tempo veremos surpresos, o quão impressionante é nossa produção. Embora o número de espetáculos possa oscilar, havendo mais ou menos produtos artísticos, em função principalmente da presença ou ausência do aporte público-financeiro nos três níveis de poder, a produção não pára! E se, raras vezes há verba para o que é ideal, trabalha-se com o possível. E dentro do possível adapta-se, recria-se, reinventa-se, sem necessariamente perder-se a qualidade artística. Mesmo porque, ainda que tudo falte, resta o talento. Coisa que, aliás, na Bahia, temos de sobra.
O nosso desafio agora, é fazer dessa produção alvo de investimentos cada vez maiores dos palácios e do interesse de toda sociedade, e seguir trabalhando e produzindo. Partindo do possível em direção ao ideal. E nessa escalada, todo degrau alcançado será uma grande vitória. E isso quer dizer que;
1. apesar de ouvirmos da nossa platéia soteropolitana, muito admirada com a qualidade de um nosso espetáculo, a expressão: “vocês são daqui mesmo?” (atestando o provincianismo que nos faz aplaudir o que vem de fora, ainda que nos desagrade), seguimos afirmando o nosso sotaque, o jeito baiano, soteropolitano e universal de fazer teatro.
2. muito embora vejamos narizes tortos, frases e atitudes preconceituosas (fruto muitas vezes da ignorância que nos foi imposta durante e após a ditadura militar muito eficiente em abafar a voz dos artistas, ou ridicularizá-la) continuamos a acreditar na capacidade de transformação, sensibilização e ampliação do senso crítico que o teatro provoca no seu público. Não só nas casas de espetáculo e nas ruas como também sendo instrumento pedagógico.
3. apesar de todos os obstáculos, reconhecemos e afirmamos a necessidade e a importância do que fazemos. Importância social, sim; histórica, sim; simbólica, sim; humana sim; política e econômica sim, TAMBÉM.
4. a despeito de uma circulação de recursos ridícula no que se refere ao investimento público e privado na área da cultura quando comparada a outras atividades econômicas e da frase definitiva “O TEATRO NÃO É UMA ATIVIDADE SUSTENTÁVEL”, nós buscamos e acreditamos em soluções alternativas para maior retorno financeiro do trabalho dos artistas e dos grupos e na nossa capacidade de gerar emprego, renda e postos de trabalho.
Pausa
…E o besouro, que nada sabia sobre as leis da aerodinâmica, voou…









