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Parabéns Janaína Carvalho!
A É Companhia de Invenções Artísticas esteve presenta na defesa de dissertação de Janaína Carvalho, a nossa Núbia de MPB – Mulher Popular Brasileira!
Além de aprovar a dissertação, a banca examinadora ressaltou a relevância da pesquisa para a formação do ator!
Parabéns, Janaína Carvalho!
Sucesso!
É Cia de Invenções Artísticas
Deco, Iara e Karina
ABORTO NÃO. ABORTO SIM. PONTO FINAL. PONTO FINAL? – por Karina de Faria
Ser a favor ou contra o aborto. Isso é tudo.
Sei que para milhões de pessoas que entendem que a vida que está no feto, enquanto dom divino, não pode ser interrompida jamais, em qualquer circunstância, isso é tudo mesmo. Trata-se de uma questão que é realmente central pra muita gente. É preciso entender e respeitar. Sempre.
Mas também é preciso respeitar as pessoas que pensam e sentem de outro modo, não? Essas, exatamente porque pensam de outro modo, não merecem ser ouvidas com o mesmo destaque? Onde estão as opiniões que defendem o aborto? Não seria importante ouvi-las, compará-las? Os seus adeptos seriam, necessariamente, ateus, negadores da fé cristã? (E sendo ateus, não merecem ser ouvidos, também?). E quando se diz “pessoas que pensam de outro modo”, fala-se apenas daquelas que são a favor do aborto? Essas, inclusive, estão cada vez mais intimidadas e provavelmente com receio de declarar aquilo que pensam. Por acaso não existem pessoas que são contra, mas que admitem o procedimento em alguns casos? Ou as que são a favor, mas reconhecem que não deve se tornar uma prática indiscriminada… E há ainda os que não sabem direito o que pensar… E há tantos outros e outras…
Eu, pessoalmente, tenho refletido muito sobre isso e embora busque respostas, continuo a encontrar muitas perguntas. De um lado não gosto do perigo de ver na prática do aborto, algo banalizado, quase um método anticoncepcional, mas também não consigo enxergar as mulheres que, em situações limite, o fazem, como criaturas criminosas e assassinas. E eu acredito em Deus e na vida como um dom que se conecta ao universo divino.
Tenho realmente dificuldade em entender esse assunto como um debate entre dois lados opostos, antagônicos e excludentes, como o retrato de uma dicotomia assim tão distante do colorido do mundo:
“Sou contra o aborto, isto é: sou do bem, porque creio em Deus e sigo seus ensinamentos. Sou a favor do aborto, isto é: sou do mal, porque não creio em Deus e não sigo seus ensinamentos.”
Quando transplantamos esse debate para a campanha presidencial, o assunto parece assumir uma dimensão ainda mais delicada. Exatamente porque aqui estão misturadas religião e política. Dimensões da vida humana que envolvem muita discussão, paixão e energia.
O que me inquieta profundamente, é que esse tema esteja sendo considerado, sem uma discussão mais aprofundada, como um fator definidor e exclusivo, para considerar “apoiável” ou não, este ou aquele candidato (a). O que me intriga é que estejam sendo dedicadas tantas páginas e falas superficiais a um tema que, dentro de uma campanha presidencial, deveria ser colocado no seu devido lugar: o lugar da política de Estado.
Assim, no caso de um(a) presidente, e mais ainda no caso de uma proposta de governo, a despeito da crença do candidato ou candidata, o assunto deve ser tratado como uma questão religiosa, sim, (talvez até principalmente, se este for o desejo da maioria da população) mas também como uma questão de saúde, de justiça, de educação, de cultura…
O que deve chamar atenção, não é o fato do ou da presidenciável, pessoalmente, considerar a prática do aborto algo que faça daquela mulher que a comete (porque parece ser sempre ela, sozinha, desconectada de toda uma rede de questões sociais, a responsável pelo ato) a algoz, ou a vítima. Mas o que seu programa de governo prevê para esses casos. Mesmo porque, num assunto como esse, assim como quando falamos de pena de morte, por exemplo, não me parece possível, considerar que o presidente ou a presidenta eleita, possa realizar qualquer ação sem que haja o envolvimento dos poderes legislativo, judiciário e do maior de todos; o poder do povo!
Sim, porque, se bem entendi, a lei da ficha limpa, com todos os “vais e vens”, acertos e desacertos, foi uma lei de iniciativa popular que teve que ser engolida pelos parlamentares enlameados… A Justiça está lá, “queimando as pestanas” para entender como aplicá-la. Não é assim que funciona a democracia? Não temos direito de nos manifestar não apenas através do voto, mas também através de mobilização popular, inclusive propondo leis? Ou estamos elegendo um presidente ou presidenta que terá poderes absolutos, como os dos antigos reis que governavam em nome de Deus? Nesse caso é bom observar que os reis absolutistas não eram eleitos. Nasciam reis e já tinham seu trono garantido! Presidentes que sobem ao poder via processo eleitoral direto com maioria de votos, num regime democrático como o brasileiro, não representam Deus. E, portanto, devem estar serviço de seu povo. Dialogando com ele.
Isso me traz à memória dois fatos que gostaria de lembrar.
O primeiro diz respeito a um outro ponto polêmico, quando se trata de religião e política pública: O uso da camisinha. Quando perguntado sobre a questão e pressionado por um argumento católico saído, provocativamente, da boca de um jornalista, um representante do Ministério da Saúde disse (com as palavras que lembro): “Tenho que tratar do assunto do ponto de vista de uma política pública de saúde. Esse é o meu trabalho, como representante do Ministério da Saúde”. Fiquei aliviada. E não quis saber se ele, pessoalmente, era contra ou a favor do uso de preservativos.
Noutro episódio, aqui na Bahia, quando da greve de policiais, vi um nosso ex-governador dizer, quando chamado a se reunir com o comando da greve (com as palavras que lembro): “me recuso a negociar com policiais grevistas”. Sei das questões que envolvem as especificidades de uma greve de policiais militares, mas ainda assim, pensei: “meu Deus! Então quem haverá de tratar do assunto? Se o governador não vai cumprir sua obrigação, quem vai? Estou, enquanto cidadã, abandonada, pelo meu representante?”
O que espero de um representante no Governo Federal, quando o assunto for aborto, não se restringe a saber se ele ou ela é a favor ou contra. Mas que trate da questão com maturidade, profundidade e responsabilidade de estadista. Que não ignore, que paralelamente às discussões que perduram há décadas, há milhares de mulheres que continuam abortando. Umas em clínicas muito chiques, com aparelhos adequados e salas limpas, outras tantas em condições deploráveis, muitas morrendo.
Espero que ele ou ela considere que esse é um assunto que pertence sim, ao plano da fé e da religião de milhões de fiéis, e que, portanto, deve ser visto com muita delicadeza e respeito. É a sua função. Mas é preciso que enxergue que há outros milhões que podem pensar diferente e que merecem ser ouvidos. Também. É a sua função.
Nós, do nosso lado, devemos nos manifestar sempre, porque, definitivamente, esse não é um tema restrito ao poder executivo, mas sim a toda sociedade.
Espero sinceramente que a campanha, trate, deste e de tantos outros temas que são fundamentais para o país, com equilíbrio de espaço para todos eles. Com o perdão da sardinha puxada para minha brasa: Onde estão as discussões sobre política cultural? Nem sequer citada nos debates…
Finalmente, sinto-me impulsionada a definir publicamente a minha opção. Especialmente porque fiquei muitíssimo incomodada com o lugar que Marina escolheu. O lugar do “tanto faz”. Não posso não me posicionar. Não dá! Declaro meu voto a Dilma, porque acho que ela já está tratando do tema com uma abordagem que vai ao encontro do sentido que defendo aqui. Com argumentos que avançam para além da dicotomia maniqueísta. E porque seu adversário insiste em resumir a discussão ao sim e não, ao ponto final a que me refiro no título deste texto. Pior, Serra e seus seguidores mais entusiasmados estão usando a fé das pessoas. Estão (como tantas vezes vimos nossa direita, acima do bem e do mal, fazer) lançando mão da “moral e dos bons costumes” quando lhes interessa e os abandonando logo em seguida se não lhes convém, por exemplo, quando ameaçam coibir seus próprios atos duvidosos.
Nos vemos nas urnas no dia 13, digo, 31 de outubro!
Karina de Faria










